segunda-feira, 23 de abril de 2007

Poema 4


Sobre Oceanos

Não me desespera nenhuma dor;

talvez só essa falta de ardor,
esse infinito torpor do mar que me navega;

talvez só esse branco,
triste oceano, labirinto de espera;

talvez só esse silêncio,

vazio do coração, meu pequeno navio sem vela...


(por Filipe C.)

terça-feira, 17 de abril de 2007

Poema 3


Sobre Circos

Minha cartola guardou os mais inquietos coelhos
Fiz os mais incríveis truques de espelho
Escondi na manga os mais secretos desejos
(Só pra te trazer pra mim...)

Testei todos os limites do teatro
Me equilibrei nas mais tênues cordas de aço
Ignorei medos e previsíveis fracassos
(Só pra te prender em mim...)

Mas eu, que tantas vezes me soube mágico,
Exímio domador de todos os teus passos,
Hoje me descobri palhaço
de uma platéia só.


(por Filipe C.)

terça-feira, 10 de abril de 2007

Poema 2


Sobre Fugas

Ela me disse que vivo fugindo...
Engano.
Vivo chegando aos mesmos novos e inesquecíveis lugares.

É verdade que caminho sozinho:
não preciso que ninguém me leve aos meus destinos.
Tenho meus próprios barcos de papel
minhas gaivotas de sombra
meu giz de cera
e meus carrinhos de madeira.

Ela me disse que vivo fugindo...
Engano.
De vez em quando surge alguma princesa encantada que me dá gosto salvar e cuidar...

É verdade que nem tudo é mágica:
Dou-lhe um beijo
nos consagramos os donos de todo o reino
e, num grande corcel negro, um belo dia, desapareço
(mas só assim o faz-de-conta o é por inteiro...)

Ela me disse que vivo fugindo...
Engano.

Vivo pra espantar dragões malvados
e bruxas narigudas
e nuvens feias de dentro mim

Vivo pra viver a delícia de, após cada batalha, me encontrar cansado
abatido
quase-amargo
e condecorar minha alma
com a medalha que só merecem
aqueles que para a fantasia dizem
“sim”.


(por Filipe C.)

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Poema 1


Sobre Desejos

Que hoje o seu amor não me seja sol,
pois aquilo que ora renova, ora revela,
também desorienta, arde, cega e seca.

Que hoje o seu amor não me seja sombra,
pois aquilo que me acompanha (mas não
me encontra) também me abandona quando
os olhos marejam e o mundo fica escuro.

Que hoje seu amor não me seja bússola,
pois partir sem nenhum rumo talvez
seja o destino oculto de toda viagem.

Que seu amor não seja chegada,
mas partida, e que cada despedida
conserve a gravidade e a ternura
da perda original e definitiva.


(por Filipe C./musicado posteriormente por Priscilla Frade)

Aos Leitores

É curioso que todo marinheiro saiba que nenhuma chegada é tão fascinante quanto a viagem que se realiza. Por mais bravios que sejam os mares, por mais duras que sejam as privações impostas pelo isolamento, por mais cansativas que sejam as rotas escolhidas, o verdadeiro prêmio do navegante não é o porto seguro, mas a experiência recolhida no caminho. Sugere-nos Guimarães Rosa, sabiamente, em sua obra-prima: "o saber não está nem na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio travessia". Talvez o ser humano precise mesmo de viagens para conhecer a si próprio e ao mundo que o cerca. Talvez toda viagem simbolize um renascer mais vivo e mais produtivo, tanto mais seguro quanto desafiador.
A proposta desse Blog é, por isso, (ajudar a) trilhar viagens. Trata-se de um espaço para a experimentação de formas e para o (re-) conhecimento individual. Livres de pretensões conclusivas, apresentamo-nos.