segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Poema 24

Eu e meu avô nascemos no mesmo dia, 22 de maio, com 55 anos de diferença. Minha mãe diz que me pareço bastante com ele: o jeito de falar, o jeito de olhar, o jeito de pensar. Convivemos pouco. Há quase vinte anos ele se foi. Outro dia, remexendo em velhos papéis, ela encontrou um caderno de poesias dele e me entregou. Minha avó disse-me que nunca soube da existência desses textos, e que nem sabia desse seu talento.
Não sei ao certo se era vontade dele um dia ver seus poemas lidos; mas, se somos mesmo parecidos, acredito que sim. Por isso, deixo aqui hoje um texto dele e, em seguida, um meu. Os estilos são bem diferentes, embora os temas sejam basicamente os mesmos.
Vô Couto...

Que Adianta

Que adianta dizer que estou sofrendo,
que me alimento mal, que não durmo enfim...?
Que adianta dizer isso, se não me estás vendo,
se agora nada, nada podes fazer por mim...?

Que adianta dizer que a noite é fria,
que a solidão me atormenta a alma,
se não vens tirar-me desta agonia,
se não vens me dar, querida, a calma...?

Que adianta odiar, me jogar ao chão,
quebrar tudo que ficar perto da minha mão,
maldizer a sorte...que adianta enfim...?

Por isso é que me vêem triste e calado:
que adianta tornar-me um revoltado,
se agora nada, nada podes fazer por mim?

(por Alceles da Silva Couto)

Sobre Esperas

A estrada vai além do que se vê
Marcelo Camelo

Não venha me dizer que vai ficar tudo bem:
ninguém tem o poder de decretar
céus azuis com borboletas coloridas
a voar entre escalas e melodias.

Não me peça fé ou paciência:
você sabe que as esperas podem ser
terríveis tragédias se o futuro
é feito de matéria escura e incerta.

A verdade é que não sei mais
se essa (talvez breve) despedida
torna esta minha vida
curta ou longa demais;

sei que, quando miro o espelho,
percebo que o tempo
já me sega com sua faca fina e fria

(e o sangue que dos meus olhos escorre
esconde até a primeira luz do dia)

*segar: cortar em tiras ou fatias delgadas; pôr termo a; acabar com.

(por Filipe C.)

17 comentários:

c.m. disse...

isso!
eles dialogam.
=)

Rebecca disse...

Que lindo o seu post de hoje! Que homenagem linda, Filipe...
Talento de família inegável...
Maravilhoso!
Sem palavras...
Beijos, poeta!

mari disse...

�. tem tempo que eu n�o comento aqui.
lembro que gostei da primeira poesia que vc postou, quando ainda dividia o blog com o marcelo.
e acompanhando todo esse trabalho fui me dando conta que me identificava com cada poema que vc divulgava. (assim como todos os visitantes, eu acredito)

mas hoje vc me fez lembrar do meu av� e de todas as coisas que ele escrevia tamb�m.
ai resolvi comentar. =)

do que vc escreve eu n�o falo mais nada. simplesmente sensacionais!

um beijo. parab�ns!

juliana disse...

Quando eu não tinha mais esperança de ver você postando hoje, eis que vem o melhor de todos até agora...
Lindo o que vôcê fez hoje, filipe!

Juju disse...

Nossa...Sem palavras...Eu estava certa, pois o talento está realmente no sangue.
Meu caro, definitivamente suas palavras me emocionam. Não há o que dizer diante de tão bela homenagem. Não sei se é ou não parecido com ele, mas se você possui o mesmo jeito de ser, eu admito que ele era um grande homem.
Ao ler o verbo esperar,lembrei-me da sua aula de hoje. Esperança...
Não sei porque,mas lembrei....
Parabéns!!Simplesmente parabens!!Dessa vez, impossivel não chorar!rsrs
Bjuxx, poeta preferido.
Hoje, ganhei mais um ídolo!!
E os () continuam me impressionando!
"(e o sangue que dos meus olhos escorre
esconde até a primeira luz do dia)"

renata disse...

há tanto tempo não lembrava do meu avô...
lindos os poemas.
parabéns!

Juju disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Amélia disse...

Hoje, mais do que nunca me emocionei lendo os poemas.
Estou completamente sem palavras.

Ambos, apaixonantes.

:')

viviane disse...

Amei os poemas.

=*

Fernanda disse...

incrível... definitivamente, não é mera coincidência.
parece que está no sangue esse (enorme) talento.
amei. =)
beijos

disse...

Queria um céu desses decretado.
=)

(Parabéns ao "Vô Couto" que também merece...)

Anônimo disse...

Não sofra querido! A felicidade é bem mais simples do que se parece...procure por ela... se dem uma nova chance! Vocês merecem!
Beijos e parabéns por essas pérolas de poesias! Seja feliz,sempre!

Uma amiga.

Leila disse...

"...sei que, quando miro o espelho,
percebo que o tempo
já me sega com sua faca fina e fria..."

Como assim meu amigo? O tempo já lhe sega? A faca é fina e fria? Amado, o tempo nos é um presente, sabe... Quando olho para minhas mãos e/ou para o meu rosto e percebo o quanto já vivi, o que aprendi, e como sou feliz percebo que é tudo muito lindo, e que é só o início...
Em minha opinião, esta faca fina e fria é o mais belo presente de nosso grande pai maior...
Olhos de águia meu amado amigo, a vida está só começando...
Suas poesias são divinas, preciosidades de valor inestimado...Parabéns seu dom é lindo e você nos surpreende cada vez mais... Quando pensamos que você se superou,lá está você inovando, criando em fim se superando!
É isso ai, a vida é como a água: "deve estar sempre em movimento, pois agua parada apodrece".
Felicidades mil, e tudo de bom que a vida possa oferecer, é o que lhe desejo sempre, pois você merece tudo e muito mais.
Beijos,
Admiro-te, respeito, amo demais meu amigo...(para mim, tu és um grande irmão).
Respeitosamente,
Leila Salles (a mãe da Talita, esposa do Claudio Henrique)...

Obs. Desculpe os erros do meu português que é péssimo.

Bianca disse...

Todos são muito legais, mas o mais simples foi o que gostei mais.
"Sobre Confissões".
Um charme! :)

ricardo disse...

Muito maneiro o blog filipe.
Parabéns!

Márcio disse...

Deve ser realmente uma surpresa descobrir tão de repente que seu avô, assim como você, gostava de escrever poemas, não tendo ele demonstrado esse hobby nem mesmo à pessoa mais próxima.

Não poderia deixar de notar que seu avô é xará do professor de química I e coordenador interdisciplinar (acertei?).
Parabéns pelo blog, continuarei visitando.

Y.K. disse...

É um mundo maravilhoso esse das suas palavras. Mergulhar nesse mar é um passatempo que toma as horas com tanta facilidade que chega até a espantar.. Couto avô e Couto neto, parecem até a mesma pessoa... Incrível como os sentimentos são tão universais, não? Adorei ambos os textos, obrigada por compartilhá-los! Abraços.