terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Poema 103


Como pretendo viajar e ficar (bem) longe da internet nas próximas semanas, publico antecipadamente o poema do dia 27! Volto depois do carnaval, no dia 3 de março! Beijos e abraços!


Sobre Desabafos
“Deixa, deixa, deixa eu dizer/ o que penso dessa vida
Preciso demais desabafar”
Ivan Lins e Ronaldo Monteiro
E quer saber do que mais?
Dei mesmo um chute na rotina:

pendurei duas saudades e um futuro
pra tomar cerveja no bar da esquina

e acabei de vez com o silêncio daquele
amor-perfeito no canteiro do quintal.

Falando sério: depois de você,
a vida passou a ser essa coisa assim,
meio maluca, meio perdida, meio bandida

(mas, cá entre nós, maneiríssima).

(por Filipe Couto)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Poemas 101 e 102


Volto a atualizar o blogue no dia 27 de janeiro!


Sobre o Autoconhecimento

Entre mim e mim,
há muitas distâncias,

cada uma deixando
perdida, escondida

uma parte
do que sou eu mesmo.

Eis o amor
como eu o vejo:

uma ponte que se cria
entre esses segredos.

(por Filipe C.)

Sobre este Calor do Rio de Janeiro

Quero mais é que você
se pinte de chuva

pra eu ir correndo na rua
me banhar e te beber...

(por Filipe C.)

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Poema 100


Com o centésimo poema, este blogueiro entra de férias. A próxima atualização acontecerá dia 13 de janeiro. Abraços e beijos a todos!

Sobre o Fim

Dorme, sonho meu,
que eu já cansei de
tanto barco e tanta asa;

já nem sei mais a conta
dos abismos, dos avessos e vazios
que no fim atravessei por nada.

Dorme, sonho meu,
que (sim) a vida é crua;

mas aprendi que assim
é livre a rua, é nova a lua,

e não há mais chuva
para me prender em casa,
com a alma nua, à tua espera.

Dorme, sonho meu,
que sem ti

não há mais medo,
nem desejo, nem segredo;

só certa paz triste
(banhada de vermelho),

e um coração
enfim ileso.
(por Filipe C.)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Poema 99


Este blogue volta a ser atualizado dia 9 de dezembro
.

Sobre Horizontes

De barcos e portos
sei quase nada.

Mas por ti
aprendi
tudo

sobre estrelas

e horizontes.

E já consigo
até medir em suspiros

essa distância entre mim
e o que fica sempre tão longe.

(por Filipe C.)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Poema 98


Este blogue volta a ser atualizado dia 25 de novembro!

Sobre o Orgulho

Quando o tempo
embaça o passado
e confunde meus instintos,

deixo tudo de lado
e olho teu retrato
por horas e horas a fio.

Teu retrato
e minha retratação:

para sempre
dois inimigos.

(por Filipe C.)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Poemas 96 e 97


Este blogue só volta a ser atualizado dia 11 de novembro; por isso, dois poemas hoje. Abraços e beijos a todos!


Sobre Desconfortos

Nunca aprendi a dizer
(olho no olho)

o que de mim é dor,
paixão, alegria ou lamento.

Pesa-me esta sensação
de estar a mais no mundo:

para viver,
faltou-me o talento.

(por Filipe C.)

Sobre Feriados

Chegou a hora
de rasgar uns retratos
e deixar a vida por aí ao acaso:

a partir de agora
(no coração)

todo dia é feriado.
(por Filipe C.)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Poema 94


Este blogue volta a ser atualizado em 7 de outubro. Abraços a todos!


Sobre a Morte - cinco passos, cinco meditações

1.
Singular
(sol entre sombras quedas),

ela enfim se apresenta

prometendo descanso
e um outro tipo de riqueza.



2.
Seu rosto não se vê,
seu corpo não se define.

É só a nós mesmos
que enxergamos nesta hora

(como moça que se nota
num relance de vitrine).



3.
Como se convencer
da necessidade da partida,
se falta impulso e mapa?

se nos pés (frágeis e incertos)
não cabe sequer uma sandália?

se no peito do capitão
só há a mancha da medalha?


4.
Chega o inevitável batel
(todo ouro e brilho),

suas velas abertas como garças,
sua gávea roçando de leve o infinito.

Eis que o não-saber
se torna todo sentir,

e o que era só certeza
se revela sem sentido.



5.
A viagem assim começa:

uma nuvem
serve de mar,

o vento vem
das asas dos passarinhos,

e o tempo vai tecendo um trilho
(feito de açúcar, veludo e vinho).

Esquecer
quem parte nesse navio

é tão improvável
quanto se perder desse caminho.

(por Filipe C.)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Poema 93


Sobre Trens


É preciso
aprender a deixar os olhos
noutros olhos ao acaso


(sem nenhuma pressa ou pretensão):

que o amor, às vezes,
é um trem atrasado
que passa desgovernado

e só pára na última estação.


(por Filipe C.)

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Poema 92


Sobre Desatinos


Não quero mais saber
do sabido, do viável, do vencido:

viver
é por demais comprido
quando nenhum desatino

se dispõe entre o instante
e o infinito.

(por Filipe C.)

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Poemas 90 e 91


Sobre Rios


Rio
(meu espelho
mavioso e fugidio).

Diferentes naturezas,
mesma certeza:

nas nossas margens,
a vida corre presa.

Diferentes naturezas,
mesma incerteza:

somos o que fomos
ou o que há-de vir
com a correnteza?

(por Filipe C.)

Sobre Caixas de Bombom

Diante de tanta vida
(que estala o coração),

sinto falta daqueles dias
em que a felicidade toda cabia
numa caixa de bombom.

(por Filipe C.)

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Poemas 88 e 89


Sobre Decisões


(Para ter espaço)
apertei o passado
num canto da mala.

Antes de partir,
lacrei meu quarto
com o escuro dentro.

(por Filipe C.)

Sobre a Cerveja

Porque a noite
nem sempre é cuidadosa
com seus cúmplices,

insisto em beber
um pouco desse sol gelado
(com poucas nuvens),

que desce emprestando
a luz que deixa homens e deuses
gloriosamente impunes.

No copo vazio
(estranha concha provisória)

o imprevisto vaticínio
de todas as histórias.
(por Filipe C.)

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Poemas 86 e 87


Sobre Angústias


Será que Deus
vai um dia me redimir

de todos os pecados
que eu nunca cometi?

(por Filipe C.)

Sobre Casas Antigas

Gosto da sabedoria
das casas antigas:

nem todas as janelas
abrem facilmente.

E mesmo as que o fazem
precisam de um suporte

para não fechar
de repente.

(por Filipe C.)

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Poemas 84 e 85


Sobre Limites


Não me dês o céu,

que o céu é limite
de tudo que existe.

E a vida
(ah, a vida...)
a vida é muito mais querida

quando
sonhadoramente

desmedida.

(por Filipe C.)

Sobre Mudanças

O amor
trouxe suas malas

e fez minha alma
mudar de casa.
(por Filipe C.)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Poema 83


Sobre Encantos


Assim me são teus olhos:

uma terra doce e estranha,
repleta de montanhas
(todas coloridas,
tocando o céu);

uma cidade
tomada por crianças
(todas sorrindo
num imenso carrossel).

(por Filipe C.)

terça-feira, 29 de julho de 2008

Poemas 81 e 82


Chegamos a nove mil visitas de computadores diferentes! Obrigado pela força, pessoal! Boa semana a todos!

Sobre Mensagens em Garrafas

Algum tempo
fiquei (sozinho) na praia.

Mas não imaginava navios,
nem apreciava o sol

que devagar se deitava
refletido nas águas.

Esperava
uma só notícia, uma só carta,
daquelas que atravessam

o oceano inteiro
dentro de uma garrafa,

me pedindo pra nadar
até o fim do mundo.

Porque só eu poderia salvá-la.

(por Filipe C.)

Sobre Idas e Vindas

Não discuto
mais com o destino.

Já aprendi a aceitar

o que o mar traz à praia
e o que ele leva consigo.

(por Filipe C.)

terça-feira, 22 de julho de 2008

Poemas 79 e 80


Sobre Beijos


A gente beija
de olhos fechados

porque no escuro
tanto faz o mundo:

(só sobra
o que é de dentro).

E quando
o que é de dentro
é assim tanto, meu amor,

é preciso (de imediato)
partir em busca
dos teus lábios


(sem nenhum pudor).
(por Filipe C.)

Sobre Nuvens

Já não temo
dias nublados.

Dentre
tantas nuvens

(algumas até pesadas)

há uma que
traz teu rosto

(e me acalma).
(por Filipe C.)

terça-feira, 15 de julho de 2008

Poemas 76, 77 e 78


Sobre Achados e Perdidos


Volto pelos mesmos caminhos,
a procurar-te em tudo
que me era querido.

Em nenhuma
parte te encontro.

(em cada uma te crio)

(por Filipe C.)

Sobre Vícios

Não há nada
mais triste nessa vida

do que uma memória
dependente de fotografias.
(por Filipe C.)

Sobre Conversas


Descobrimos (juntos)
que deixar tudo pela metade

às vezes
é a melhor maneira
de manter acesa a saudade.
(por Filipe C.)

terça-feira, 8 de julho de 2008

Poemas 73, 74 e 75


Olá, pessoal!
A partir desta semana, prometo responder a todas as perguntas deixadas na parte de comentários, tá? Se vocês olharem a postagem de semana passada, verão que isso já foi feito!
Boa semana a todos!


Sobre Ondas

Porque cada onda
(na verdade)

é só a vontade
do mar

de abrir asas e voar.
(por Filipe C.)

Sobre Casacos

É inverno.

(preciso vestir
teu abraço).
(por Filipe C.)

Sobre Vozes

Minha voz
anda tão fraca

(nem chega mais
aos seus ouvidos).

Mas de tanto
não conseguir falar

meus olhos
já aprenderam a suspirar

(agora só falta você ouvir...).
(por Filipe C.)

terça-feira, 1 de julho de 2008

Poemas 71 e 72


Sobre Quadros

"(...) é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói."
(Carlos Drummond de Andrade)

Não a ausência
do quadro na parede;

Mas a lembrança que ali ficou:
(indelével retrato da minha sede).

(por Filipe C.)


Sobre Tesouros

Vai, se pressentes
tesouros escondidos.

Vai, se queres ir.

Mas não me procures
se perderes o mapa:

(também eu sei partir).
(por Filipe C.)

terça-feira, 24 de junho de 2008

Poemas 68, 69 e 70


Três poemas bem concisos hoje: não estranhem a ausência de título e de parênteses!
Obrigado pelas mais de oito mil visitas ao blogue e pelos mais de vinte e cinco mil cliques neste endereço.
Boa semana a todos!


I
Teus olhos azuis
na tua pele morena

(como pode o mar inteiro
caber exato nessa cena?)

(por Filipe C.)

II
De hoje em diante
será preciso muito agora

pra acabar de vez
com esse tal de antes.
(por Filipe C.)

III
Amor sem nuvens:

alma ancorada
num porto azul.
(por Filipe C.)

terça-feira, 17 de junho de 2008

Poemas 66 e 67


Sobre Suspeições


Saio à rua
como quem se oculta
(ando pelos cantos, sem chamar atenção).

Não confio
nas intenções da vida:

já anda pesada
a sacola em que levo o coração.

(por Filipe C.)

Sobre Lápis de Cor

Espalho meus lápis de cor pelo chão.

Há tanto tempo
entendo que precisas de espaço...

Mas eu queria
te desenhar um desenho bem bonito

em que eu mesma me fizesse
céu, sol, passarinho, vento, moinho

(ou algo qualquer que te mostrasse
como seria leve minha vida em teu caminho).

Para que tudo fique perfeito,
não me importa usar toda minha caixa,

minhas folhas e borrachas,
porque (além de ti) não desejo nada.

A única coisa que me faz hesitar
é esse medo de o tempo

apagar meu desenho
antes que o queiras olhar
.
(por Filipe C.)

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Poema 65 - "Edição Especial"

Olá!
Há um ano escrevi aqui o "Sobre Tempestades", poema de que eu gosto muito, mas que fala sobre separação, o que de maneira alguma combinava com a data em que foi publicado. Isso de certa forma me incomodou e, para tentar me redimir, neste ano resolvi fazer uma edição especial do blogue. Espero que vocês gostem...Enamorados ou não!


Sobre Namoros

Ouve:
agora tu não podes mais me deixar.

Porque é só pelo teu corpo
que conheço a medida do meu;

e sem teus olhos, sem teu rosto,
meu próprio espelho se perdeu.

Ouve:
teu lugar não é mais a meu lado.

Porque agora
tu já estás em mim.

E não podes me trair.

Afinal, como seria
ser quem sou (e viver comigo)

se de mim mesmo estivesse separado?
se de mim mesmo fosse temido ou odiado?

Ouve:
eu te amo.

E porque te amo
mais do que alguém imaginaria,

desaprendi todos os meus limites,
e hoje sou pessoa além do que merecia.
(por Filipe C.)

terça-feira, 10 de junho de 2008

Poema 64


Sobre a Pureza

Amo quia amo, amo ut amem*
Será que é preciso
que tudo na vida tenha
um sentido (um objetivo, uma razão)?

Será que uma cor só é cor
nas asas de uma borboleta?

Será que um perfume só é perfume
na flor mais bonita da estação?

Se perfumes e cores
não precisam de borboletas e flores,

então também meu amor
(seja mocinho, seja bandido)
não precisa ser correspondido:

ele pode, de verdade, viver sozinho
sem receber sequer aprovação.
(por Filipe C.)

*amo porque amo, amo para amar

terça-feira, 3 de junho de 2008

Poema 63


Sobre o Azul
ma è proprio colpa tua
se provo un brivido blu
Tua voz.
Cor de impossível mar.
Arrepio azul.

Não navego.

Mergulho.

(até ficar sem ar)
(por Filipe C.)

terça-feira, 27 de maio de 2008

Poema 62


Sobre o Vento


Ah, entregar-me ao firmamento
e ser pra sempre esse leve vento...

Poder teus olhos fechar
(pra nenhum cisco te machucar)

e devagar tocar teu rosto,
e desarranjar teu cabelo,

e envolver teu corpo,
e arrepiar teus pêlos

e depois partir
(sem culpa ou medo)

levando só teu perfume
(lembrança que amanhece meu mundo inteiro).

(por Filipe C.)

terça-feira, 20 de maio de 2008

Poema 61


Estou de volta!

Nesse recesso, bateu-me uma curiosidade danada de saber de que poema do blogue cada um aqui gosta mais... Quem tiver tempo (e paciência) pode deixar um comentário com a resposta?


Boa semana a todos!


Sobre Aparências

Quem me vê assim sozinho
não sabe nada de mim...

Aqui dentro
mora mais que um vazio.

Aqui dentro
mora um atentado, um grito, um perigo
a perturbar todo dia o meu ouvido,

para lembrar que às vezes
é preciso correr certos riscos,

é preciso afiar coração, dentes, unhas,
e sair, sem medo, à rua

(pronto para amar ou morrer).

(por Filipe C.)

terça-feira, 13 de maio de 2008

Aviso


Meus amigos,

Obrigado por continuarem a acompanhar este blogue, mesmo durante o "recesso". A média mensal de visitas continuou quase a mesma, o que me deixa muito feliz.

Espero que tenha dado tempo de vocês lerem os poemas mais antigos!

Semana que vem, prometo tentar voltar a publicar aqui. Volto esta semana a escrever!

Abraços a todos! Obrigado pela paciência!

terça-feira, 1 de abril de 2008

Poema 60 - Fim da Primeira Fase


Eis que
As Outras Palavras comemoram aniversário!

Este blogue iniciou suas atividades há um ano, sempre com atualizações semanais. Sessenta poemas depois, mais de vinte mil visitas depois, é chegado o momento da pausa; o momento da reflexão.


Até o início de maio, não publicarei mais poemas inéditos às terças. Preciso de tempo para pensar no que estou fazendo.


Não pretendo abandonar o blogue. Pelo contrário, creio ser o momento ideal para conversar com quem visita este espaço, para responder a dúvidas ou curiosidades. Estou à disposição de vocês.


Boa semana a todos!


Sobre Ironias

Sabe o que é
mesmo triste?

É ter
sempre por perto

amores
que não deram certo

ou que nunca tive.

(por Filipe C.)

terça-feira, 25 de março de 2008

Poema 59


Seis mil visitas de computadores diferentes... Mil em um mês. Quase vinte mil acessos desde junho do ano passado, segundo o
blogpatrol. Mais um vez, obrigado! Boa semana a todos!

Sobre Segredos

O meu amor por ti
navegou pelos meus sonhos
sem se dar conta das suas margens;

foi além de seus próprios limites:
não quis passear, mas partir em viagem.

O meu amor por ti
calou todos os pássaros
que anunciam a madrugada;

não quis encontrar a luz do dia:
ficou satisfeito só em imaginar como seria
seu rosto perfeito refletido nas águas.

O meu amor por ti
acabou refém do seu próprio reino:

teve medo de conhecer-te de perto,
acabou escondido (mas protegido)
atrás das paredes de seu solitário castelo.

(por Filipe C.)

terça-feira, 18 de março de 2008

Poema 58


Sobre Chuvas e Luzes


Meus sonhos me deixam e vagueiam
por praias machucadas pela chuva.

Praias onde
não há sol, nem estrelas, nem lua;

onde não há sequer a amargura
de um pequeno barco à deriva.

Só sonhos. Só chuva.

Enquanto isso,
na lacuna que em mim fica,

a lembrança tua se instala
(e me ilumina).

(por Filipe C.)

terça-feira, 11 de março de 2008

Poema 57


Sobre Descobertas


É bom
mergulhar de olhos abertos,

para nunca
ter medo de nenhum mistério.

(sei que, no fundo do mar,
há um barco que leva a ti)

Amar, no fim de tudo,
não é conquistar o mundo;

é, simplesmente,
ter a coragem de descobrir.

(por Filipe C.)

terça-feira, 4 de março de 2008

Poemas 55 e 56

Sobre Partidas

Vais porque és todo mar,
e já não te contentam
minhas praias desertas,
repletas só de areia, só de mim.

Vais porque és todo vento,
e já não te contentam
meus portos (assim seguros,
assim bentos, assim sem fim).

Mas antes desta nova partida,
deita um pouco no meu colo,

faz teu mar
dos meus olhos,

torna meus braços
teu barco

(e leva, com todo cuidado,
um sonho meu pra navegar).

(por Filipe C.)


Sobre Encontros

Perdoa-me se não falo muito
quando estou contigo.

(é que me perco nos teus olhos
quando tento guardá-los aqui comigo)

(por Filipe C.)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Poema 54


Sobre Corações e Navios


Para navegar,
não preciso de dias claros:

basta-me um coração iluminado
(desses que não tombam assim tão fácil).

O bom marinheiro
sabe o momento de recolher as velas,
para que seu navio se conserve inteiro.

O bom marinheiro
sabe que uma tempestade

não é coisa que se cria ou se adia;
é algo que cresce dentro da gente

(e que, às vezes, até nos abriga).

(por Filipe C.)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Poema 53


Mais de cinco mil visitas desde junho do ano passado. Obrigado pelo carinho e pelo respeito.
Boas leituras!

Sobre Espumas


...é que a tua companhia
me faz cada vez mais sozinha,

e toda vida precisa
de alguma coisa sempre nova
(que teu rosto não anuncia)

de alguma coisa ainda fresca
(acesa como a luz do dia)

de algo como o vento
que passa em silêncio sobre o mar,
cavalgando brando (sereno navegar),

sem medo de sereias ou dunas,
até se entregar em espuma
às areias de um olhar...

(por Filipe C.)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Poemas 51 e 52


Sobre Praias


Vem agora, ó bem-amada...

Dentro de mim,
mora uma praia ensolarada,
um mar imenso e algumas vagas.

Às vezes, tu mesma
surges dessas águas
e vais à areia me namorar.

Mas o carinho, que me dás,
ó bem-amada,
tem o peso da tua ausência...

(tua boca, ainda molhada,
tem o sabor das minhas lágrimas...)

(por Filpe C.)

Sobre Caminhos

Fugi, para além da curva sem fim.

(E hoje, perdido em desatinos,
caminho entre os labirintos
da solidão que há em mim)
(por Filpe C.)

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Poemas 49 e 50


Sobre Sonhos

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus./ Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor./ Porque o amor resultou inútil.
(Carlos Drummond de Andrade)

O céu plúmbeo nada anuncia.

Nem a chuva
(outrora, memória; agora, apatia).

Mas chega um momento
em que (sem heroísmos ou egoísmos)
é preciso inventar um pequeno barco no ar

(ou um outro sonho qualquer
que nos arranque o chão dos pés).

Chega um momento
em que não se pode aguardar o vento,
em que temos que nos arremessar ao mar.

Porque é urgente salvar o amor.

Chega um momento em que é urgente amar.
(por Filipe C.)


Sobre Rosas

A certeza da lágrima não fez murchar essa rosa.
Tão delicada e clara (tudo mais era nada!),
ela só se deslumbrava com a hora de fenecer.

(porque se sabe finita, cada pétala ganha
mais cor ainda ao som do entardecer...)

Mas as minhas lágrimas não são certas,
nem minhas rosas estão despertas...

Sem ocaso, meu mundo
(infinito e opaco)
ainda espera por você.
(por Filipe C.)

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Poemas 47 e 48


Sobre Vazios


Hoje, não sou mais
que a nuvem desfeita ao vento,
que a folha perdida no chão.

Hoje, não sou mais
que o silêncio (vestido de preto),
que o frio cadente desta estação.

Hoje, não mais existo
porque faltas tu em mim

e essa ausência é menos
um alento que uma pesada cruz.

Hoje, sou mais como um brilho intenso
que se apaga (num momento)
em ambos os lados da luz.

(por Filipe C.)

Sobre Rupturas

Nos seus olhos
tudo o que eu poderia ter amado.

Nas minhas mãos (guardados)
os dados viciados do nosso jogo.

No coração
o som sem voz das nossas histórias.

E no serenar dos seres e das coisas
(exatamente naquele átimo em que
tudo é silêncio e expectação),

ela (num soluço) arrombou
a porta surda e saiu pela rua,
sem pisar uma única lágrima...

(por Filipe C.)

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Poema 46


Sobre o Pôr do Sol


A meu favor,
tenho a cor desse pôr do sol.

Tenho o sonho,
as palavras
e essa capacidade de voar
sem olhar as próprias asas...

A meu favor,
tenho também o teu retrato


(mesmo tão delicado, ele sustenta
todas as paredes do meu quarto).

(por Filipe C.)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Poemas 44 e 45


Hoje quase não tivemos poemas aqui. Graças à intervenção de quem gosta de verdade deste blogue (para adotar a escrita portuguesa), fui intimado a publicar não um, mas dois poemas com estilos bem diversos. Boas leituras e boas semanas!


Sobre Entregas

Cá entre nós,
se ao final desta história estaremos todos sós,
de que adianta reclamar, chorar, lutar até perder a voz?

Por que, então, não abraçar as coisas feias
e esquecer as nossas dores (e as alheias)?

(já me disseram que só assim é possível
a paz de existir, sem se ferir...)

Mas o problema é que (no fundo, no fundo)
quem vive de verdade se entrega a tudo.

(e, quem sabe?,
toda lágrima vale a pena
se a alma não é serena)

(por Filipe C.)

Sobre Artistas

Muitas vezes manchadas por desastradas experiências cotidianas
ou rasgadas por mãos que (inocentes) nos esfarelam as esperanças,
muitas vezes amareladas (pelo tempo ou pelo medo)
ou marcadas por dobras, necessárias para embrulhar terríveis segredos,

somos todos folhas em branco – livres, infinitas de futuro –
prontas para serem preenchidas com letras e cores
(ou para podermos passar a limpo
as histórias das nossas próprias dores )

Podemos escrever nelas
o nosso destino
com as nossas mãos...

Mas por que parece ser minha sina
ficar à espera de algum artista
que me desenhe a vida
num arranco de inspiração?
(por Filipe C.)

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Poema 43


Sobre o Mundo

A espantosa realidade das cousas/
É a minha descoberta de todos os dias.
Alberto Caeiro
Tenho cuidado
pra não deixar minha alma
falar muito alto e atrapalhar o ritmo
com que tudo, desde o Início, se mantém.

(não me julgues: também
as flores são borboletas que
decidiram não ir mais além)

Meu coração só bate quando arranco uma parte
de algo ou de alguém e ponho em mim:
sou de tudo que existe no mundo
um voluntário refém.

(por Filipe C.)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Poema 42

Olá!
Já expliquei aqui, neste nosso espaço, que poucas vezes a voz lírica dos meus poemas se confunde com a minha própria voz. Pra mim, a poesia é o momento da fantasia, das vidas que eu não vivi ou das que eu ainda vou viver ou das que eu vivo pelos outros. O poema de hoje, no entanto, é diferente. Talvez a tessitura não esteja tão boa. Talvez a mensagem não esteja tão bem trabalhada. Mas foi o que eu quis escrever. Ainda esta semana, eu publico aqui um outro, no estilo dos que vocês já se acostumaram a ler. Hoje, com a sua licença, vai este aqui.
FELIZ NATAL!

Sobre o Natal

A memória dos meus dias de criança
bate mansa hoje à minha porta.

Já não me importa mais ganhar brinquedos:
embora creia ainda ser um menino
(pois tenho medo de crescer sozinho),
não perco o sono, nem acordo cedo
na manhã de Natal, à busca do rastro
de um improvável Papai Noel.

Tudo de que eu preciso pra ser feliz
é ter as mãos sempre sujas de giz,
cuidar da minha família e dos meus amigos
(na terra e no céu)
e poder brincar com o lápis
num pedaço de papel.
(por Filipe C.)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Poema 41


O poema de hoje é bem antigo... O estilo, inclusive, é diferente... Espero, no entanto, que seja também do agrado de alguns de vocês!
Boa semana a todos!

Sobre Preços

Quanto custa a paz, o sonho
(a paz do sonho),
o impulso, o orgulho?

(e pular teu muro sem fazer
barulho quanto é que custa?)

Quanto custa ter um prato de arroz com feijão,
segurar a mão da pessoa amada,
passar o dia todo na rede,
pendurar um quadro lindo na parede,
encontrar um lugar escondido pra pensar,
abraçar a noite, a estrela, o mar?


(será que o custo depende
da aparência do embrulho?)

Me diz quanto é que custa...

Quanto custa o trabalho, o tempo
(trabalhar o tempo),
o empenho, a busca?

(e o teu abraço,
que tudo cura, quanto é que custa?)

Que vale mais?
Um inesperado beijo,
o sorriso de uma criança no recreio,
torcer pelo Flamengo no Maraca cheio,
um cafuné, o cheiro quente do café,
beber com os amigos, fotografar um sorriso,
acordar tarde, acabar com a saudade,
ou ganhar uma promoção justa?


Me diz quanto é que a vida custa...

(por Filipe C.)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Poema 40


Sobre Bonecas

A boneca de pano,
mesmo depois de anos
esquecida num canto,
ainda não consegue cair no sono...

(será que ela ainda espera um campeão
vir libertá-la das suas amarras
feitas com fios de algodão?)

Minha boneca de pano,
deixa-me hoje te embalar
ao som do meu coração:

também eu não durmo porque
tenho medo de entrar no escuro
que desperta a solidão...


(por Filipe C.)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Poema 39

Sobre Pipas
"Hold me closer tiny dancer"
Elton John
Eras a só minha bailarina,
quando a nossa caixinha
de música emudeceu...

Eras a só minha última figurinha,
aquela que ninguém mais tinha,
quando meu álbum se perdeu...

Sei que devia ter me acostumado
a só brincar sozinho, para evitar o perigo
de alguma coisa desse tipo novamente acontecer...

Mas ainda hoje
(mesmo sem te encontrar
em nenhuma parte)

empino teu mais que lindo sorriso
no céu da minha imensa saudade.

(por Filipe C.)

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Poemas 37 e 38


O poema 13 (Sobre Travessias) foi um dos mais controversos que eu já publiquei aqui. O que poucos sabem, no entanto, é que esse poema contém elementos de um outro, mais antigo, que eu tinha escrito. Como o trabalho tem me consumido muitas horas, resolvi publicar a versão mais antiga para não deixar o blog vazio esta semana. Aproveito para deixar um outro poema "velhinho", mas que tem um grande valor sentimental para mim. Boa semana a todos (e torçam pela minha sobrevivência)!


Sobre Seus Olhos

Tarde demais para esquecer seus olhos...
Eles são tão doces e radiosos,
que estavam postos na minha memória
antes de a nossa história acontecer...

(Quando a imagem dela tudo invade,
e toma conta deste coração,
que ainda bate, não resisto ao sonho,
e abraço bem forte essa saudade...)

Ai, quem me dera fazer dessa espera
algo mais que todo esse falar baixo,
que toda essa esperança secreta...

Poder dizer ao mundo que só quero
abrir os braços, cantar sua chegada,
olhá-la, e não ter que dizer mais nada...


(por Filipe C.)


Sobre um Fim de Tarde

Na vida, não há chegadas nem partidas...
O que há são longas e penosas travessias
a que estão sujeitas as nuvens, as lágrimas, os dias.

Submetidas a essa condição, as coisas
(inconscientemente)
teimam, insistem, lutam
e existem.

Algumas, para isso, se agarram às nossas calças
(ou às nossas almas)
(ou aos nossos colos)
(ou aos nossos olhos).

Outras
(as mais perversas e perigosas)
arrancam de si próprias cânceres
realizam os mais complicados transplantes
e sobrevivem, travestidas de lembranças
que amanhecem num fim de tarde qualquer...
(por Filipe C.)

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Poema 36


Sobre Gavetas (ou Gaveta de Guardados)

Na minha gaveta de guardados,
deixei todos os retratos,
todas as cartas e recados
(que você nunca me deu).

Escondi tuas amantes,
esqueci teu jeito errante,
esse teu jeito tão distante
(de quem nem me conheceu).

Larguei lá meus desatinos,
meus olhos, teu sorriso,
meus sonhos, teus carinhos
(todo amor que não valeu).

Fiquei só com esse meu medo,
com teu nome, meus receios.
Fiquei só com esse segredo
(esse silêncio todo meu...).


(por Filipe C. / musicado por Priscilla Frade)

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Poemas 34 e 35


Sobre Medidas


Pudesse eu medir
meu mundo com as tuas mãos,

e (ainda assim) enxergar
as chuvas e as flores
como elas realmente são.

(por Filipe C.)


Sobre Mergulhos

Quando, à minha volta,
o escuro faz tudo mais naufragar,

eu mergulho no tempo, nado
e invento como tudo poderia ser.

(abençoado é esse momento
que me leva até você)
(por Filipe C.)

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Poema 33


Sobre o Mar

“Navigare necesse; vivere non est necesse”

Navego meus olhos
com o fim de tarde ao colo.

(em que portos
estarão minhas memórias?
os meus amores? os meus irmãos?)

Ancoro meu horizonte
com qualquer barbante:

há dias em que o mar todo
cabe bem nas minhas mãos.

(por Filipe C.)

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Poemas 31 e 32

Há cerca de um mês, duas pessoas que sequer conheço, mas que freqüentam este blog, resolveram me escrever para "desabafar" (nos termos de uma delas) algumas de suas questões pessoais. Respondi a elas da melhor maneira possível e hoje nem sei como tudo ficou em suas vidas. O fato é que os dramas humanos são objeto poético e, por isso, a história delas foi transformada nos poemas a seguir. Boa semana a todos!

Sobre a Terra
"faço o melhor que sou capaz
só pra viver em paz"
Marcelo Camelo

Ah, quem me dera
derramar-me sobre a terra
e ser dela antes grama que flor.

(meu destino não é ser colhido:
é servir de abrigo para o orvalho
escondido que o sol nunca secou)
(por Filipe C.)

Sobre Expectativas

I

Por viver de expectativas,
acostumei-me a conservar
fechado o meu diário de viagem.

(adiei-me à espera do vento certo para navegar)

II

Por colher (no dia a dia)
mais fantasias que memórias,
talvez hoje pudesse até rasgar minha vida

(confuso rascunho de uma história nunca escrita)
(por Filipe C.)

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Poema 30


Sobre Cicatrizes

Não pudeste ser
o meu refúgio, a minha mina escondida;

foste antes o palco iluminado em que
se apresentaram sonhos, medos e feridas.

Para te lembrar, não precisarei de retratos:
bastará olhar o meu próprio peito com cuidado.

(serás sempre a minha mais linda cicatriz)

(por Filipe C.)

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Poema 29


Sobre Costumes

Nem o luar, nem as estrelas:
as luzes, antes acesas,
todas se apagaram.

(foi por medo ou por cansaço que
eu fiquei tantos anos ao teu lado?)

Deito vestido
para que acredites
no meu sono fingido
e não te chegues tão perto.

(meu corpo não estranha mais o teu,
mistério já resolvido por completo)

Cuidaste sempre tanto
de mim (e dos meus desastres)
que, se hoje te beijasse, cometeria incesto.


(por Filipe C.)

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Poema 28


Sobre Folhas

Na suave folha
que corta o vento,
tento (sereno) me segurar...

(moro em castelos
de areia, ilhas, poemas:
sei que assim será sempre
um problema conseguir me encontrar)

Mas, ainda que a minha vida
seja uma tola ilusão,
entrego a ela (mesmo sozinho)
todo este meu coração.


(por Filipe C.)

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Poema 27


Sobre Frutos

Deixa, então, que o amor amadureça,
mas (é bom que não esqueças)
estejas atento a qualquer surpresa...

(qualquer vento que acaso me mereça,
poderá, de repente, me balançar inteira)


(por Filipe C.)

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Poema 26


Sobre Jardins

Por que não estás aqui, ao pé de mim,
pra dividir o peso deste jardim
sem flores que ora vejo?

(é só no teu rosto, e não em outro,
que eu consigo encontrar sossego)


(por Filipe C./ adaptado e musicado posteriormente por Jessica Nogueira)
*"ao pé": junto a; perto de

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Poema 25


Sobre a Beleza

Sei que quando você passa
o mundo inteiro pára
(porque ele é todo seu).

É claro que admiro o que há de lindo
e admito que é impossível
não ficar à sua mercê.

Mas hoje não quero mais seu rosto,
nem seu corpo, nem aquilo que todos
sem esforço podem ver:

quero esse seu jeito tão meigo;
quero esse seu silêncio perfeito
de quando nada se precisa dizer;
quero seus planos, segredos, medos e afins;

e quero pra sempre essa sua alma
(conto de fadas) calada, colada junto a mim.


(por Filipe C.)

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Poema 24

Eu e meu avô nascemos no mesmo dia, 22 de maio, com 55 anos de diferença. Minha mãe diz que me pareço bastante com ele: o jeito de falar, o jeito de olhar, o jeito de pensar. Convivemos pouco. Há quase vinte anos ele se foi. Outro dia, remexendo em velhos papéis, ela encontrou um caderno de poesias dele e me entregou. Minha avó disse-me que nunca soube da existência desses textos, e que nem sabia desse seu talento.
Não sei ao certo se era vontade dele um dia ver seus poemas lidos; mas, se somos mesmo parecidos, acredito que sim. Por isso, deixo aqui hoje um texto dele e, em seguida, um meu. Os estilos são bem diferentes, embora os temas sejam basicamente os mesmos.
Vô Couto...

Que Adianta

Que adianta dizer que estou sofrendo,
que me alimento mal, que não durmo enfim...?
Que adianta dizer isso, se não me estás vendo,
se agora nada, nada podes fazer por mim...?

Que adianta dizer que a noite é fria,
que a solidão me atormenta a alma,
se não vens tirar-me desta agonia,
se não vens me dar, querida, a calma...?

Que adianta odiar, me jogar ao chão,
quebrar tudo que ficar perto da minha mão,
maldizer a sorte...que adianta enfim...?

Por isso é que me vêem triste e calado:
que adianta tornar-me um revoltado,
se agora nada, nada podes fazer por mim?

(por Alceles da Silva Couto)

Sobre Esperas

A estrada vai além do que se vê
Marcelo Camelo

Não venha me dizer que vai ficar tudo bem:
ninguém tem o poder de decretar
céus azuis com borboletas coloridas
a voar entre escalas e melodias.

Não me peça fé ou paciência:
você sabe que as esperas podem ser
terríveis tragédias se o futuro
é feito de matéria escura e incerta.

A verdade é que não sei mais
se essa (talvez breve) despedida
torna esta minha vida
curta ou longa demais;

sei que, quando miro o espelho,
percebo que o tempo
já me sega com sua faca fina e fria

(e o sangue que dos meus olhos escorre
esconde até a primeira luz do dia)

*segar: cortar em tiras ou fatias delgadas; pôr termo a; acabar com.

(por Filipe C.)

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Poemas 22 e 23

Separados por exatos três anos, os dois poemas abaixo tratam do mesmo casal, do mesmo relacionamento. Obrigado pelas quase duas mil visitas em menos de três meses e pelos comentários constantes! Boas leituras!

Sobre o Céu

Porque o céu são diamantes exatos,
frios e distantes, ponho meus olhos
ainda estanques sobre a terra.

Porque na terra não há mais
que folhas derramando lentamente
na estrada o seu fim, ponho meus olhos
(assim tristes, assim fatigados) sobre mim.

Porque em mim só vejo o escuro,
duro fundo de uma alma sem rumo,
Ponho meus olhos sobre ti.

(e fico...)


(por Filipe C.)
Sobre Tolices

Porque não conseguia mais dormir,
esta noite destruí suas fotografias,
seus presentes, suas poesias.

Porque já não suportava mais
me sentir desse jeito, arranquei do peito
todos os meus planos (perfeitos)

e exigi do meu coração que se desse ao respeito
e não aceitasse nunca (nunca) nenhuma
lembrança maluca que você pudesse oferecer.

(mas esse quarto escuro, essa cama vazia
são tristes subornos que a minha
saudade bandida insiste em receber)

(por Filipe C.)

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Poema 21


Sobre Confissões

Guardo cada um dos teus beijos
debaixo do meu travesseiro.

(assim, quando o céu se põe,
e meus olhos não estão mais acesos,
ainda brinco com todos eles em segredo)


(por Filipe C.)

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Poema 20


Sobre Balões

Balões só são bonitos
se o vento os tirar pra dançar;

se (de repente) eles subirem sozinhos,
com piruetas e rodopios e outras evoluções pelo ar;

se houver o perigo de a gente ficar
com o olhar perdido (por vidas a fio)
esperando-os voltar...

(ah, não me prendas tão forte assim, então:
todo amor só cresce de verdade
quando também é balão...)


(por Filipe C.)

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Poema 19

Sobre a Verdade
Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
Fernando Anitelli

A verdade é como um rio em que
somos obrigados a nos atirar.

De mãos dadas mergulhamos (já distantes da nascente)
e, valentes, batemos contra pedras,
nadamos contra correntes,
até que (uma hora), quando ela quase nos afoga,
nos soltamos para nos salvar.

E, assim, separados (saudade perversa),
conseguimos, em margens diversas,
finalmente respirar.

Mas enquanto você estiver do outro lado
(à distância de um grito,
esperando antes um abrigo
que o conforto de um lar),

enquanto você estiver do outro lado
(sentado, calado, sozinho,
com seus olhos tão lindos
que me mentem a dor desse lugar),

enquanto você estiver do outro lado
(com frio, à mercê da noite e dos seus perigos),

ainda há sentido em novamente mergulhar:

porque, cedo ou tarde, os rios todos passam,
e eu só tenho a vida inteira pra te amar.


(por Filipe C.)

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Poema 18


Sobre Covardias

Fecha os teus olhos e escuta essa chuva
que (tão calma...) tudo inunda.


Agora escuta (atento)
o lamento do vento nos vidros
e respira fundo o frio todo que faz lá fora.

Aproveita, vai aí dentro do teu peito
e me procura naquele breve espaço
escondido entre a culpa e o desejo.

E se você, por acaso, me encontrar,
por favor, me arranca de lá...

(um coração que, por medo, não sangra
não pode nunca ser o meu lar)

(por Filipe C.)

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Poema 17

Sobre Fantasias
Vem, por favor não evites
Meu amor, meus convites
Minha dor, meus apelos
Chico Buarque
Não me olhe assim:
pode ser que desta vez eu não fuja e repita,
(com a alma nua) que eu só quero ser pra sempre sua.

Não me peça discrição:
meu amor não tem antes nem depois
e precisa (sozinho) ocupar o vasto espaço
que ainda existe entre nós dois.

Não me pergunte o que eu quero:
às vezes imagino ser o vento
batendo lento à sua porta
até que você possa
se abrir para eu entrar

(às vezes prefiro ser só pensamento,
invadindo seus sonhos até você acordar).
(por Filipe C.)

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Poema 16

Em comemoração às mil visitas em pouco mais de quarenta dias, deixo hoje dois poemas: o primeiro que eu escrevi e o último deles, finalizado esta manhã. Qual é qual? Deixo que o leitor perceba por si. Até segunda que vem!

Sobre Ilusões

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Cecília Meireles

Nada é assim.
O céu azul, lavado da madrugada,
as crianças se divertindo com os palhaços e suas piadas
e ela, ansiosa, me esperando à entrada da nossa casa.

Nada é tão bom assim. Nada.
O dia não aceita soluções simplistas.
Há sempre uma nuvem (distraída) embaçando a vista.

E os palhaços? Bem, nem sempre o artista
pode disfarçar sua tristeza (quanta ironia...),
mesmo com quilos de maquiagens e fantasias.

E ela? Pode ser até que ela me espere à porta
da nossa casa, ansiosa - ou aflita?-,
se armando para a nossa próxima briga...

Nada devia sequer parecer tão bom assim.
Porque, às vezes, tudo acontece como deveria
(nossos sonhos, nossa vida)

mas, quando a noite chega, deitamos,
sobre fantasmas, nossas cabeças
e (mesmo à nossa revelia)
as dúvidas pululam e as sombras se multiplicam.

(por Filipe C.)

Sobre o Silêncio

Quando a tarde ouviu
O adeus na tua voz,
Ainda chovia...

Uma chuva tímida e triste...

(a mesma chuva que insiste
em te manter em mim)

(por Filipe C.)

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Poema 15

Sobre Ignorâncias

Nem ninguém se lembrava da criatura
e de seus sofrimentos e de sua
atormentada vida ali deixada.
Jorge de Lima

Passei muitos anos (preso) nos meus porões (escondido),
treinando minha cara de surpreso,
ensaiando exclamações de desespero,
rezando para que você me ignorasse ou me traísse.

(às vezes acho que já nasci esperando o dia
em que finalmente poderia
te odiar)

Enquanto isso, você lá fora
ignorava esses meus silenciosos ritos
e com todo o amor que eu não te dei na vida
devagar me tecia
o mais belo luar.
(por Filipe C.)

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Poema 14


Sobre o Pânico
Ladrões e contrabandistas
estão cercando os caminhos
Cecília Meireles
Carrego em cada bolso uma saudade,
mesmo que haja ladrões em toda parte,
e eu não tenha olhos para vê-los...

(o medo, no entanto, me permite senti-los
caminhando exatamente na minha direção)

Nem a luz do dia me alivia:
em cada sombra, ainda que distraída,
mora o perigo de um espanto.



(por Filipe C.)

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Poema 13


Sobre Travessias
É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
pensamento atribuído a Fernando Pessoa

Sei que muitas vezes temos que esquecer
nossos caminhos, porque senão sempre
chegaremos em desalinho aos mesmos lugares.

Sei que é preciso esquecer as velhas roupas:
elas já têm o formato dos nossos corpos
e sufocam os nossos esforços de transformação.

Mas sei também
que é tarde demais para esquecer seus olhos...

(eles são tão doces e tão radiosos,
que estavam postos na minha memória
antes de a nossa história acontecer...)


(por Filipe C.)

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Poema 12


Sobre Lágrimas
Vamos, não chores.../ A infância está perdida.
A mocidade está perdida./ Mas a vida não se perdeu
Carlos Drummond de Andrade
Chora baixinho, que desespero
não é coisa de se espalhar por aí...

(também eu tenho guardado alguns segredos:
arrependimentos – ou ressentimentos? – das coisas que já vivi)

Não quero que a nossa vida seja um livro aberto:
Só nos unimos quando sofremos sozinhos,
só nos amamos quando não fazemos o certo.
(por Filipe C.)

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Poema 11


Em uma semana, este blog, que mal completou dois meses, teve mais de duzentas visitas de computadores diferentes. Nunca imaginei que uma página com poesias pudesse ter um alcance tão grande. Muito obrigado pelo carinho, pelo respeito, pelos comentários críticos e positivos, que espero poder merecer sempre.

Sei que hoje é véspera do dia dos namorados, e que, por isso, o poema desta semana deveria falar de passarinhos voando placidamente por céus de puro anil... No entanto, preferi atender ao pedido de um grande amigo meu, que, ao ler o poema da semana passada, me perguntou de uma forma tão ingênua quanto direta:
quando você escreveu o poema, você também pensou por que esse cara largou a mulher? O poema desta semana é uma resposta a você, meu caro, e a todos que talvez tenham se perguntado por isso. Boa semana a todos! Até segunda que vem!


Sobre Tempestades
Parto porque é dia e eu sou a luz
da última estrela.
Christina Ramalho
Entenda bem: não é minha intenção te fazer algum mal...

(afinal, que culpa você tem de não colher os frutos,
enquanto eles ainda estavam maduros,
enfeitando as árvores nosso quintal?)

Se hoje eu decido caminhar, não é por orgulho
ou por falta de tanto amar.

É porque, a esta altura, já se acalmou o mar,
e eu preciso da tempestade,
para imensamente naufragar.



(por Filipe C.)

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Poema 10


Sobre o Futuro

A timidez dos seus livros, o silêncio
das suas roupas, a despensa vazia...
nossa casa me sussurra a sua partida.

(é tão difícil acabar com o segredo
e explicar pro nosso espelho
que ele não vai mais te encontrar...)

Nesse tempo todo, você sempre
me ensinou até onde eu posso chegar...

Mas agora, mirando este quarto escuro,
sinto que preciso desaprender tudo,
para, sozinha, conseguir me libertar.




(por Filipe C.)

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Poema 9


Sobre Despedidas

Era ela (só ela...) quem povoava
meu mundo quando a noite vinha apagar
as cores e os perfumes de todas as flores.

Era ela (meu deus...era ela...) quem tecia
metros e metros dos sonhos (que eu vestia),
e das palavras (que me criavam lindas fantasias).

Foi ela quem rabiscou a minha identidade,
brincou de esconder com os meus olhos,
pulou corda com a minha sanidade...

Mas, um dia , esqueceu-se da minha voz, das minhas carícias,
perdeu meu endereço, jogou fora minhas camisas,
apagou as marcas do meu corpo, rasgou as minhas fotografias,

e sumiu como uma estrela, das que se escondem ao nascer de um dia...



(por Filipe C.)

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Poema 8


Sobre Aniversários
Imagino o artista num anfiteatro
Onde o tempo é a grande estrela
Chico Buarque

Até ontem o tempo
me ditava a vida e o pensamento,
sem que eu pudesse perceber...

Só que a partir de hoje vai ser tudo diferente:
se ele quiser me enganar de novo,
vai ter que me encarar de frente
olhando no fundo do meu olho.


(por Filipe C.)

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Aviso

Em função do lançamento do "Blog de Aula" no Globo, volto a postar até quinta-feira! Desculpem-me!

(Filipe C.)

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Poema 7


Sobre o Passado

Um dia, não deixaremos que o passado dance
com as lágrimas rasas dos nossos olhos...nem que ele brinque
de faz-de-conta, com o que restou do nosso espólio.

Um dia, retiraremos as máscaras que impusemos
às nossas dores e vestiremos (com orgulho) a verdade,
com todas as cores que o cinza sonha ter.

E, assim, um dia, cara-a-cara, não diremos nada:
assumiremos, convictos, o silêncio dos vazios
que nos preencheram nessa estrada.



(por Filipe C.)

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Poema 6


Sobre Perdas
The art of losing isn't hard to master
Elizabeth Bishop
porque nada na vida é definitivo
(nem a memória, nem seu sorriso),

aprendi desde cedo a trancar todas as gavetas
e a varrer pra fora de casa certos detalhes
(suas juras, seus vestígios, seus olhares).

nada nesta vida é seguro:
é sempre melhor perder de uma vez tudo
que ser refém de pequenas ausências no futuro...
(por Filipe C.)

terça-feira, 1 de maio de 2007

Poema 5


Sobre Dias de Chuva

Por entre hordas de buracos, postes e ratos,
por entre vitrines e espelhos a cada segundo multiplicados,
por entre gemidos metálicos e carros acelerados

(neles homens buzinam a vida, mas seguem calados e amargos),
passo por espaços cheios da tua figura.

(Na rua, a noite escura rouba, oportuna, todas as sombras tuas...)

A lua (ainda tímida, ainda muda) ponteia distante o céu.

E eu, fiel a minhas tolas juras,
caminho por esta chuva,
carregando meus sonhos
numa sacola de papel.



(por Filipe C.)

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Poema 4


Sobre Oceanos

Não me desespera nenhuma dor;

talvez só essa falta de ardor,
esse infinito torpor do mar que me navega;

talvez só esse branco,
triste oceano, labirinto de espera;

talvez só esse silêncio,

vazio do coração, meu pequeno navio sem vela...


(por Filipe C.)

terça-feira, 17 de abril de 2007

Poema 3


Sobre Circos

Minha cartola guardou os mais inquietos coelhos
Fiz os mais incríveis truques de espelho
Escondi na manga os mais secretos desejos
(Só pra te trazer pra mim...)

Testei todos os limites do teatro
Me equilibrei nas mais tênues cordas de aço
Ignorei medos e previsíveis fracassos
(Só pra te prender em mim...)

Mas eu, que tantas vezes me soube mágico,
Exímio domador de todos os teus passos,
Hoje me descobri palhaço
de uma platéia só.


(por Filipe C.)

terça-feira, 10 de abril de 2007

Poema 2


Sobre Fugas

Ela me disse que vivo fugindo...
Engano.
Vivo chegando aos mesmos novos e inesquecíveis lugares.

É verdade que caminho sozinho:
não preciso que ninguém me leve aos meus destinos.
Tenho meus próprios barcos de papel
minhas gaivotas de sombra
meu giz de cera
e meus carrinhos de madeira.

Ela me disse que vivo fugindo...
Engano.
De vez em quando surge alguma princesa encantada que me dá gosto salvar e cuidar...

É verdade que nem tudo é mágica:
Dou-lhe um beijo
nos consagramos os donos de todo o reino
e, num grande corcel negro, um belo dia, desapareço
(mas só assim o faz-de-conta o é por inteiro...)

Ela me disse que vivo fugindo...
Engano.

Vivo pra espantar dragões malvados
e bruxas narigudas
e nuvens feias de dentro mim

Vivo pra viver a delícia de, após cada batalha, me encontrar cansado
abatido
quase-amargo
e condecorar minha alma
com a medalha que só merecem
aqueles que para a fantasia dizem
“sim”.


(por Filipe C.)

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Poema 1


Sobre Desejos

Que hoje o seu amor não me seja sol,
pois aquilo que ora renova, ora revela,
também desorienta, arde, cega e seca.

Que hoje o seu amor não me seja sombra,
pois aquilo que me acompanha (mas não
me encontra) também me abandona quando
os olhos marejam e o mundo fica escuro.

Que hoje seu amor não me seja bússola,
pois partir sem nenhum rumo talvez
seja o destino oculto de toda viagem.

Que seu amor não seja chegada,
mas partida, e que cada despedida
conserve a gravidade e a ternura
da perda original e definitiva.


(por Filipe C./musicado posteriormente por Priscilla Frade)

Aos Leitores

É curioso que todo marinheiro saiba que nenhuma chegada é tão fascinante quanto a viagem que se realiza. Por mais bravios que sejam os mares, por mais duras que sejam as privações impostas pelo isolamento, por mais cansativas que sejam as rotas escolhidas, o verdadeiro prêmio do navegante não é o porto seguro, mas a experiência recolhida no caminho. Sugere-nos Guimarães Rosa, sabiamente, em sua obra-prima: "o saber não está nem na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia". Talvez o ser humano precise mesmo de viagens para conhecer a si próprio e ao mundo que o cerca. Talvez toda viagem simbolize um renascer mais vivo e mais produtivo, tanto mais seguro quanto desafiador.
A proposta desse Blog é, por isso, (ajudar a) trilhar viagens. Trata-se de um espaço para a experimentação de formas e para o (re-) conhecimento individual. Livres de pretensões conclusivas, apresentamo-nos.